sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Arte e as questões sociais refletidas na obra Guernica

Paula Taísa Steffenon, acadêmica de Jornalismo,VII nível*

A sociedade contemporânea vive em um mundo de conflitos entre povos, disputas de territórios e pelo poder, questões religiosas, miséria e crimes. E essa violência retratada no cotidiano nos remete a uma verdadeira guerra. Inseridos neste cenário muitos artistas vem trabalhando com questões que nos fazem refletir a realidade social em que vivemos. No século XX Picasso pinta a Guernica e o horror da guerra ganha dimensão, em que retrata a morte e o massacre, durante a guerra Civil Espanhola. Hoje a obra é uma representação contra a violência e que nos faz “pensar sobre” e a arte é uma fronteira a ser explorada e revelada através das manifestações do artista. Nesse contexto entrevistamos a Professora de História da arte da Universidade de Passo Fundo Me. Margarida B. Pantaleão da Silva.

ComArte - Quem foi Picasso?
Prof.ª Margarida - Picasso foi um dos maiores artista do século XX. Ele foi considerado o mestre da cor e foi um dos primeiros artistas em que marcam significativamente um posicionamento político e social, não político partidário, mas político enquanto idéia, enquanto ação de um artista dentro de uma sociedade. Ele também é o primeiro artista a ter em vida consideração, sucesso, reconhecimento, tanto de publico quanto de critica. Ele foi rico, ele foi poderoso e teve inúmeras mulheres. Então isso em vida era uma coisa que dificilmente acontecia. Os artistas geralmente morriam pobres e depois de muito tempo, é que a sociedade os descobria e valorizava e as suas obras alcançavam altas cotações. E Picasso não, Picasso conheceu tudo isso em Vida.

ComArte - Durante a guerra civil Espanhola no ano de 1937, Picasso pintou uma das suas obras mais conhecidas internacionalmente, que foi a obra Guernica. Poderia nos falar o que foi a Guerra Civil Espanhola?

Obra Guernica -1937
Prof.ª Margarida - Uma das grandes questões do artista moderno e da contemporaneidade é a inserção do artista como uma função social. O próprio Picasso dizia “a pintura não é feita para decorar apartamentos, é um instrumento de guerra ofensivo e defensivo contra o inimigo”. Então a gente sabe que a guerra civil espanhola teve um bombardeio que foi em 26 de abril de 1937, num vilarejo basco de Guernica e que aconteceu isso. Então Picasso o mestre da cor muda completamente a sua representação, porque Guernica é uma grisalha, é gris, ela não tem cor. O artista tem duas grandes questões sempre na sua produção, que é a expressão de individualidade, que é o seu mundo pessoal a sua dimensão psicológica, o mundo aonde ele está inserido, e neste momento a guerra era uma coisa que estava acontecendo e que quem fazia isso era o próprio homem.

Então o mundo pra ele na época não era o mundo da cor, era o mundo da guerra e a guerra não era uma coisa boa. Tanto é que por um bom tempo essa obra foi rejeitada pelo próprio país de origem, ela esteve fora, hoje ela reina como grande ícone no Museu Rainha Sofia em Madri.



Então inclusive tem uma passagem que a maioria dos livros destaca, durante uma blitz da polícia no seu próprio apartamento, que a guernica estava lá, e que a polícia revistou todo o apartamento e perguntou pra ele, afinal porque o senhor fez isso? E em uma atitude muito irreverente, muito intimista dele, mas muito forte, ele vira pros policiais e diz: eu não fiz isso, quem fez isso foram vocês. Que dizer, era um posicionamento dele enquanto ser numa comunidade, que era um ser do mundo, um ser social, que é a grande questão do artista.

O artista não é somente a pessoa que embeleza, como ele diz a arte não era feita para decorar, a arte era um instrumento e é até hoje. A gente vê hoje isso continua acontecendo de diferentes formas e com outros artistas. Um dos artistas que é mais popular a partir de hoje que é o Vick Muniz que discute essa questão da sociedade, ele foi trabalha com os papeleiros, foi trabalhar com lixo. Isso é uma grande questão do homem na contemporaneidade e quem rompeu toda essa grande questão do século XX, foram os artistas modernos e como grande destaque da modernidade a gente tem a figura do Picasso.

ComArte Você comentava antes que a obra Guernica foi uma obra encomendada. Como teria sido essa encomenda?
Prof.ª Margarida - No inicio deste ano, Picasso teria recebido do governo da Republica, a encomenda de uma composição de deveria decorar o pavilhão Espanhol da Exposição Internacional de Paris, mas quando chega a Paris a notícia do bombardeio desse vilarejo basco o que ele faz? Ao invés de fazer um painel comemorativo ele faz aquilo que ele acha que no momento é necessário, que é mostrar os horrores da guerra.

ComArte - Muitos autores afirmam que Picasso até então, não era uma pessoa interessada em política partidário, e na II Guerra Mundial ele se filiou ao partido comunista, como a Guernica influenciou nesse sentido?
Prof.ª Margarida - Eu acho que toda a vida do artista é um construir e desenvolver uma linguagem. Então a gente vê que esse artista que a gente diz que é considerado o primeiro grande artista do século XX a ter em vida reconhecimento, sucesso, ele também conheceu o outro lado da fama, que é o problema que as pessoas na sociedade cobram do artista posturas tradicionais, cobram do artista que ele faça de repente diferentes coisas que não é aquilo que naquele momento ele gostaria de fazer. A gente vai ver que a vida do artista ela é composta não só de fases, mas de uma maturidade que vai mudando as relações. Aquele homem que durante muito tempo as pessoas viam apenas como o que atraia muitas mulheres pra sua vida, que era uma pessoa de muito sucesso de muita fama, ele também era uma pessoa que tinha um posicionamento e isso é uma coisa que ele acaba em determinados momentos da sua vida, tornando claro que ele não tinha que atender apenas ao gosto de alguns, mas que ele era uma pessoa que tinha uma questão social.

ComArte - Hoje vivemos em uma sociedade de constantes conflitos, onde muitos povos vivem em guerra, e a Guernica de Picasso seria uma representação contra a violência. È possível fazer uma relação da violência vivida atualmente com a obra de Picasso, a Guernica?
Prof.ª Margarida - A gente vê que tem muitos artistas que fazem isso na contemporaneidade. A gente vai vê um dos maiores fotógrafos do mundo que é Sebastião Salgado que ele mostra que a tragédia, a miséria, a doença, a violência, a pobreza é bela. É uma coisa que extremamente trágico você pensar sobre isso, mas ele traduz em imagens fotográficas tudo isso, não pra destacar isso como ícone, mas pra fazer com que as pessoas pensem sobre. Porque, quem pode mudar isso? O homem. Então a gente vê que o homem artista é essa pessoa que dentro de um contexto de uma sociedade é um dos que pode, porque a gente sabe que isso não é competência, não é atribuição apenas do artista, mas ele é uma das pessoas que tem condições pra fazer isso. E assim que nem ele tem muitos outros, uma das grandes questões da contemporaneidade é que ela é inclusivista, ela permite que o artista faça inclusive uma revisitação histórica que ele possa se inserir em diferentes momentos da história, trazendo isso, apropriando-se dessas imagens, desses elementos, desses temas para a contemporaneidade.

A gente vê que o nosso artista goiano Siron Franco, ele trabalhou inclusive sobre essa questão do césio, ele discute coisas que agridem a própria sociedade, e mostra isso na sua arte e ele é um artista de reconhecimento internacional. O próprio Tunga que é um dos grandes artistas brasileiros discute temas sociais, questões políticas. Isso é uma coisa que surgiu na modernidade, a gente viu que um dos grandes artistas modernos brasileiros que foi Portinari fez isso. Os retirantes de Portinari é o que? Eles mostram a pobreza, a miséria, questões que estavam acontecendo naquele momento e ele não é contemporâneo, ele é moderno. Então você vê que hoje tem muitos artistas trabalhando questões temáticas, sociais, políticas econômicas, filosóficas, religiosas. A gente vê outra grande questão contemporânea que é o hibridismo, que permite que diferentes influências sociais, políticas, inclusive de etos de origem, venham ser refletidas na sua própria ação, enquanto um ser da sociedade. O artista é um ser social.


A Professora Margarida Brandina Pantaleão da Silva é Mestre em História, Teoria e Crítica da Arte pela UFGRS. Saiba mais sobre Picasso ouvindo esta entrevista, na integra, aqui.

Visite o site Museu Rainha onde está exposto a obra Guernica do artista Pablo Picasso.
Acesse: www.museoreinasofia.es

*Paula é aluna do 7º nível de Jornalismo da Faculdade de Artes e Comunicação

1 comentários:

Guilherme disse...

A obra Guernica me faz lembrar de obras como a Trenodia para as Vítimas de Hiroshima, de Pendereck, exemplo de obra musical que retrata o horror do efeito da bomba atômica, não com um arranjo musical agradável aos ouvidos, mas dissonâncias fortes e "assustadoras", que mostram claramente a visão do compositor sobre tal fato. Me faz pensar também sobre a idéia de "morte da arte", no sentido de a arte não representar apenas as coisa boas do munso, mas também as más.